Texto e foto: Gábi Daltro | Arquitetura: Nat Coelho

Tem uma parte do trabalho de arquitetura que acontece quando a obra já terminou, os móveis chegaram e a casa começa a receber as coisas de quem vai morar nela. Foi um pouco disso que acompanhei durante essas fotos, enquanto Nat ajudava a organizar os objetos de uma cliente no apartamento.

Eu adoro essas conversas que acontecem enquanto fotografo. Porque a gente começa falando sobre onde colocar um livro, se aquela peça fica melhor mais para cima ou mais para baixo, se a estante está cheia demais, e de repente está falando sobre a vida inteira de alguém.

A moradora tem muitos livros, objetos de viagens, lembranças de família e uma relação muito particular com tudo isso. Ela gosta das coisas que não são exatamente perfeitas. Das peças desproporcionais, das diferenças, daquilo que talvez outra pessoa nem escolhesse. Ela disse que o perfeito é chato, monótono, que não tem nada a ver com a vida real. E achei bonito ouvir isso enquanto a gente tentava encontrar um lugar para cada coisa. Eu ia me encantando pelas coisas, enquanto fotografava.



Tem livros que o avô mandava para ela desde pequena. Tem um tucano que ficava na casa dos pais e que a mãe vivia pedindo para ninguém quebrar. Um dia ele quebrou, foi consertado, ficou com suas marcas e continua ali. Talvez você jogasse fora.

Tem um jogo comprado numa feira de antiguidades na Argentina, guardado não exatamente pelo jogo, mas porque ela passou um tempão jogando com alguém durante a viagem e quis levar aquela experiência para casa.


E tem a câmera do pai, com a qual foram feitas tantas fotografias da infância dela. Imagino o que significa ter aquele objeto por perto e poder olhar para ele todos os dias. Lembrar de ser criança é tão bom!
Fiquei pensando em como a gente costuma falar de decoração como se fosse apenas uma questão de combinar cores, materiais e proporções. Mas ali, diante daquela estante, daquela sala e daquele marzão (motivo da escolha do apê) o trabalho era outro também. Era encontrar espaço para histórias que não têm necessariamente a mesma origem, a mesma estética ou o mesmo tamanho.

E Nat estava justamente nesse exercício de organizar sem apagar essas diferenças. Mudar uma peça de lugar, aproximar outras duas, deixar um espaço vazio, experimentar. Nem tudo precisava combinar. Nem tudo precisava ficar perfeitamente alinhado.

Acho que foi isso que mais gostei de acompanhar. Uma casa que não está sendo arrumada para parecer uma casa de revista, e continuar parecendo com quem mora nela. Com os livros do avô, a câmera do pai, o tucano quebrado, as lembranças das viagens e tantas outras coisas que ainda vão chegar.
Entre um café e um chá, uma vida inteira passou pelas minhas lentes.



Ensaio completo no http://www.gabidaltro.etc.br/portfolio/a-casa-do-dia/1703331-nat-coelho-ape-bossa