A Casa do Dia
Pituba
Danilo Mascarenhas | Neuza
As fotos foram em um domingo pela manhã e Danilo me contou que começou este projeto não pelo que faltava mas sim pelo que já existia: muitos livros, obras de arte, objetos trazidos de viagens, cristais, peças de prata, louças herdadas da mãe. Uma coleção construída ao longo do tempo e que, de certa forma, já contava quem moraria ali antes mesmo de qualquer decisão de projeto.
A reforma partiu desse lugar e foi feita sem a necessidade de mudar tudo. Na área social, o piso original da sala foi preservado. A parede que separava a cozinha foi retirada, ampliando a relação entre os dois ambientes, e o novo piso da cozinha resolveu a marca deixada por essa antiga divisão sem a necessidade de uma soleira. Em outra parede, uma condição técnica, o quadro elétrico que precisava permanecer, acabou incorporada ao desenho e transformada em volume. O revestimento em escama de peixe trouxe textura e um pouco mais de personalidade à cozinha.
Dos três quartos do apartamento, um virou escritório para acomodar uma parte importante da vida da moradora: seus muitos livros. No quarto, um trecho da antiga varanda foi incorporado ao quarto, ampliando o espaço. E até uma preocupação muito particular entrou no projeto: o medo de baratas (me senti representada rs) fez com que frestas, ralos e possíveis acessos fossem cuidadosamente pensados e vedados. Pode parecer um detalhe pequeno, mas talvez sejam justamente essas pequenas exigências que façam uma arquitetura deixar de ser genérica para pertencer verdadeiramente a alguém.
O projeto parece ter respondido a uma pergunta delicada: como dar lugar ao que ela já tem? Aos livros que leu, às obras que escolheu, às coisas que trouxe de longe, às louças que vieram da mãe, ao biscoitinho que fica aos olhos de quem chega, na bancada da cozinha. E fazer isso sem fechar a casa em torno dessas memórias, organizando o que já chegou, deixando espaço para o que ainda pode chegar.