A Casa do Dia

Horto Florestal

Rafael Souza | Debora

No dia das fotos, enquanto rola o ensaio, a gente sempre conversa sobre tudo o que foi feito ali. Eu gosto de saber até pra poder registrar e interpretar como uma história, uma narrativa. Especialmente quando o arquiteto está presente. Com Rafa não foi diferente.

Antes do projeto começar, o apartamento já tinha algumas direções traçadas. Por vontade do casal de moradores, um estudo de Vastu Shastra havia sido feito para o local, estabelecendo orientações para o uso dos espaços, a circulação, as cores, as proporções e até a posição de alguns elementos. Ao entrar no projeto, Rafael Souza partiu dessas indicações não como limitações, mas como mais uma camada a ser incorporada à arquitetura, respeitando uma escolha que já fazia parte daquela casa.

Algumas decisões nasceram diretamente desse encontro. A posição do cooktop permite cozinhar voltado para o norte; espelhos foram deslocados para que seus reflexos não interferissem em determinadas zonas; algumas áreas precisaram permanecer livres, preservando o fluxo a partir da entrada; proporções específicas orientaram o desenho do mobiliário. As cores também acompanham essa lógica: em determinados ambientes, tons ligados à terra assumem protagonismo, enquanto outros elementos e materiais respondem às características energéticas apontadas pelo estudo, feito por outra arquiteta, Silvia Prosérpio.

Há ainda soluções quase invisíveis, como barras de cobre instaladas nas soleiras. Talvez seja justamente aí que o projeto fique mais interessante. Nada parece ter sido colocado para ilustrar uma crença ou construir uma casa temática. O Vastu Shastra não aparece como imagem ou em objetos, aparece nas escolhas. Se não me tivesse sido contado, eu provavelmente não perceberia.

O que percebi foi outra coisa. Diferente de muitos espaços que fotografo, naquele dia acabamos usando a casa enquanto fazíamos as fotos. Em um momento quase mágico, Rafael pegou o violão do cliente e o ensaio terminou assim, embalado por boas músicas.

Isso diz muito sobre o projeto. O resultado é um apartamento contemporâneo, funcional e aparentemente espontâneo, guiado por uma ordem que nem sempre se vê. Uma arquitetura construída e respeitada também a partir daquilo que não é visível.

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