A Casa do Dia
Vitoria
Pedro Cordova | Pedra da Vitoria
Achei lindo que quando perguntei a Pedro sobre ele projeto ele começou assim:
"Gábi, falar sobre esse apartamento é falar sobre uma vida leve, sabe?".
Eu entendi na hora.
Porque tem projetos que são sobre forma. E tem outros, como este, que são sobre o que a gente leva da vida.
Aqui, o que mais chama atenção não é um revestimento novo ou um detalhe arquitetônico ousado. É o mar. Um quadro vivo. Mutante. Indomável. Cada dia ele é outro. Céu nublado, azul aberto, dourado de fim de tarde. A paisagem não é pano de fundo, é obra de arte.
E talvez por isso a decisão mais forte tenha sido mexer quase nada.
O piso de granito ficou. O forro permaneceu limpo. As paredes ganharam tons neutros, a arquitetura virou base para que o que realmente importa aparecesse.
E o que importa aqui é história.
A curadoria foi acontecendo aos poucos, quase como quem monta um album de memória. Peças de antiquário convivem com objetos encontrados em viagens. Obras assinadas dividem espaço com achados inesperados. Um verdadeiro high-low, mas sem intenção de parecer tendência. É de verdade.
Eu gosto quando o projeto não grita. Esse apartamento não quer impressionar pelo óbvio. Ele não começa falando de mármore, de painel ripado, de grandes soluções técnicas. Ele começa falando de vida. De uma cliente com repertório, com bagagem cultural, com um nível de autoconhecimento raro, e isso muda tudo.
Porque quando o morador sabe quem é, a casa também sabe. O projeto existe para guiar estas escolhas.
Na semana anterior, desmarcamos. Choveu em Salvador. E esse apartamento precisava do sol como parte da narrativa. Foi o primeiro pedido de Pedro. No dia das fotos, essa sensação ficou ainda mais clara. Cheguei cedo. Fotografei primeiro com a luz suave, sem o sol entrando direto. O espaço estava equilibrado, calmo, totalmente disponível para a gente. Mas a gente sabia que faltava um capítulo.
Esperamos.
Quando ele começou a entrar, devagar, foi como se a casa respirasse diferente. A madeira aqueceu. O couro ganhou profundidade. As plantas vibraram. As obras nas paredes receberam sombras alongadas o mar ficou dourado. Era outra atmosfera. Outra emoção. Outro apartamento.
Ali eu entendi melhor o que Pedro quis dizer com vida leve.
Leve não é ausência de personalidade. Leve é quando tudo faz sentido junto.
É uma arquitetura contemporânea com alma brasileira. Com design assinado, com arte, com escultura, com plantas, com porta retrato, com memória. Um apartamento despretensioso na intenção, mas profundamente potente no conteúdo.
E o mais bonito: quando a cliente recebe alguém, ela não apresenta a casa. Ela conta a própria história através dela.
Fala de uma viagem.
De um quadro encontrado em tal lugar.
De um pratinho achado no fundo de uma loja pequena.
E é isso que eu tento fotografar: não só o espaço, mas o que ele carrega.
Obrigada por me escolher, Pedro.